CRIAÇÃO E MISSÃO

Regina de Cássia Fernandes Sanches

A CRIAÇÃO: OBRA DE DEUS

Somos seres humanos, Adam, humanidade formada por Deus para habitar a terra que Ele criou, conforme relata o Dêutero- Isaías: Porque assim diz o Senhor, que criou os céus, o Deus que formou a terra, que a fez e a estabeleceu, não a criando para ser um caos, mas para ser habitada... (Isaías 45. 18).

Nossa proposta é fazer uma leitura de Gênesis 2.4b- 24,  e buscar perceber no relato da criação da humanidade os propósitos divinos para a  criação de um modo geral. Também serão abordadas as implicações advindas desses propósitos que, neste caso, se limitará às questões do trabalho, da terra e da mulher. Estes temas, a nosso ver, aparecem de forma latente nesse texto da criação e tem a ver com problemas atuais da América Latina e de povos com graves problemas políticos- sócio- econômicos merecendo, portanto, fazer parte da nossa discussão teológica. 

A abordagem é feita a partir da consciência de que a Teologia da Missão, como toda Teologia Contextual, deve considerar as questões que são relevantes em seu ambiente de surgimento, a fim de que possa respondê-las  e apontar caminhos para o anúncio e a vivência da vontade de Deus neste mundo.

A Vida como dom constante de DeusImagem

O texto de Gên. 2.4b-25, apresenta a criação dos seres humanos. No início ele explica a ausência de vida na terra logo após Deus "fazer" os  céus e a terra, o que é atribuído à falta da chuva porque o Senhor Deus não tinha feito chover sobre a terra, (2.5) e à ausência de alguém que trabalhasse a terra para que ela produzisse as plantas e ervas, no caso "o homem".  No entanto, o relato não apresenta uma situação de completa aridez, pois afirma que a face da terra era "regada" por um manancial que subia da própria terra. Isto nos mostra que antes do ser humano é Deus quem cuida da terra e a sustenta com seus cuidados. Os seres humanos são criados e chamados para a participação neste “serviço de Deus”.

O texto lido também afirma que o homem somente recebeu vida porque Deus lhe deu a vida, soprou-lhe nas narinas o fôlego de vida(2. 7). O redator de Jó amplia tal compreensão na fala de Eliú quando afirma que a vida é um dom constante de Deus O Espírito de Deus me fez, e o sopro do Todo- Poderoso me vida  (Jó 33.4), revelando que o dom da vida é um ato contínuo de Deus. Em sua obra de sustentação das coisas criadas está a de vivificar esta criação constantemente. Tal verdade, no Novo Testamento, é apresentada de maneira efetiva em Jesus Cristo, conforme afirma o apóstolo João, em Jesus está a vida Assim como o Pai tem a vida em si mesmo, também concedeu ao Filho ter a vida em Si mesmo (João 2.15a), e continua ele, relatando esta revelação feita por Jesus ...Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida (João 14.06). Assim, é correto afirmar que tanto a vida como seu sustento  é um dom de Deus em Cristo.

Com base nas afirmações acima, é necessário admitir que o princípio teológico que deve permear toda a compreensão da Missão e sua tarefa reflexiva e proclamadora, é que Deus é o Senhor constante da vida. Esta verdade é evidenciada a todo o momento nos textos que formam o Antigo Testamento, seja nas profecias, nos cânticos, na história como nos conselhos dos sábios.

O Trabalho e o Propósito Criador de Deus

Conforme o relato da criação, Deus faz os céus e a terra, forma o homem e depois planta o jardim e o coloca sob os seus cuidados e, da mesma terra, forma os animais e também os coloca sob os cuidados do homem. O texto também aponta a necessidade do homem ter alguém com ele para cumprir sua tarefa de cuidar da criação, o termo utilizado é "auxiliadora". É relevante ressaltar a importância que o redator dá para a tarefa do ser humano Adam, homem e mulher (humanidade),  que está expressa nos verbos que ele escolhe desde o início de seu texto, ou seja: lavrar a terra, lavrar e guardar, ajudar e nomear. Todos indicando serviço, responsabilidade e compromisso com as coisas criadas. 

O trabalho é o propósito inicial para os seres humanos e o trabalho voltado para a terra de onde ele mesmo foi formado. Numa relação de amizade, ele cuida da terra e esta lhe dá o alimento, revelando um cuidado recíproco. O redator bíblico  afirma que os seres humanos foram criados para o trabalho de cuidar da criação, mas em nenhum momento dá a idéia  de substituição de Deus em alguma atividade. O texto é claro ao apresentar a criação do ser humano numa situação de cooperação com Deus, numa convivência harmoniosa com Ele e a criação que estava sob a sua responsabilidade. O próprio jardim, afirma o texto de Gên. 2.8,  foi plantado pelo Senhor para ali colocar o ser humano. Mas este homem não faria o trabalho sozinho, teria uma auxiliadora que lhe fosse idônea, tão capaz quanto ele.  Johannes B. Bauer faz a seguinte afirmação ao comentar sobre a compreensão desse homem diante do outro ser humano, expresso na frase: ... essa é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne... (v. 23):

A expressão não deveria, portanto, ser entendida como 'cântico de núpcias' ou como 'declaração de amor'. Pondo a fórmula na boca do homem, o autor quer, ao contrário, sublinhar a igualdade da mulher com o homem. É seu desejo também ressaltar a posição de domínio que compete a ambos sobre o reino animal[1].

         O texto bíblico analisado é claro ao apontar o ser humano, como cooperador de Deus na manutenção e desenvolvimento de Sua criação. Ele em nenhum momento é apresentado como sujeito passivo que fora criado simplesmente para gozar ociosamente das benesses de um ambiente ecológico e socialmente saudável. Sua participação é inteiramente ativa,  ele é "formado" por Deus para ser seu ajudante, como lembra Núñez  Haviam sido criados para trabalhar pelo Deus que trabalha[2].  É bom lembrar que ele não somente cuidaria da terra mas a faria produzir.  E que essa tarefa ele não cumpriria sozinho, mas Deus o faria com Ele, porque embora o ser humano é chamado para cuidar da criação, somente Deus pode dar a vida.

         O relato sobre a queda (Gên. 3) aponta a "maldição" (Gên. 3.14-19) sobre a serpente, a mulher e o homem. Conforme o texto, juntamente com o homem a terra é amaldiçoada. O trabalho que ele foi designado  fazer quando de sua criação vai se dar agora com dificuldades e sofrimentos. Uma terra que antes, através do seu trabalho, produziria fertilmente boas plantas para o sustento do homem e da sua familia, agora, produziria também  espinhos e abrolhos. A terra também passou a sofrer com o pecado humano. Diz o apóstolo Paulo que esta criação aguarda sua libertação  Porquanto a criação ficou sujeita à vaidade, não por sua vontade, mas por causa daquele que a sujeitou ( Rom. 8.20).  A Bíblia de Jerusalém traz o seguinte comentário sobre este assunto:

O pecado transtorna a ordem querida por Deus: em vez de ser a associada do homem e sua igual (2.18-24), a mulher se tornará a sedutora do homem, que a sujeitará para ter filhos; em vez de ser o jardineiro de Deus no Éden, o homem lutará contra um solo hostil.[3]

         Várias inferências podem ser extraídas da análise deste relato na elaboração de uma Teologia da Missão que considere a vida humana, suas relações com Deus e Sua vontade.  Como afirmamos no início do estudo, no contexto da América Latina, tratar das questões do trabalho, da mulher e da terra e ouvir o que a Bíblia diz a respeito é tarefa urgente da Missão Integral da Igreja.

Conclusão

Se a Missão é obra de Deus é porque a criação é obra  de Deus, obra exclusiva de Deus, idealizada e formada por Ele. O homem é parte desta criação. Foi trazido da inexistência para a existência a fim  de cuidar dela e fazê- la desenvolver. O primeiro mandato bíblico é um chamado para o serviço a Deus na Sua criação. Não existe outro lugar para o ser humano a não ser aquele designado pelo próprio Deus, ou seja, cuidando e fazendo desenvolver tudo quanto Ele criou. Não existe outro meio para o auto- entendimento desta criação de Deus, como humanidade, se não  no papel que lhe foi outorgado pelo próprio Deus. Pierre Gilbert e Etiene Charpentier tratam com muita propriedade desse assunto em seu texto A Criação como Libertação[4]. Comentam eles:

 O homem deve viver livre, feliz por dominar o mundo, por trabalhar com outros, mas na gratidão... para com Deus, de quem ele recebeu o mundo como presente magnífico. O 'serviço a Deus'  aparece, assim, na Bíblia, como o modo certo para o homem cumprir sua tarefa de dominação.

O trabalho, nesse caso, é fruto de uma relação harmoniosa entre Deus o ser humano e o restante da criação. Não visa escravizar o homem em função de interesses de uma minoria, mas dignificar os seres humanos em sua responsabilidade de cuidar da criação de Deus. Trabalhar, conforme o relato da Criação, não é conseqüência do pecado, mas é benção de Deus. No entanto, não se pode deixar de mencionar que o texto não se refere ao trabalho ganancioso que visa, em detrimento de outras ordenanças aos seres humanos, o enriquecimento e a busca de poder. O texto menciona o trabalho harmonioso que surge como resultado de uma compreensão por parte do ser humano de sua humanidade e de sua responsabilidade como criação de Deus.

Se o trabalho é dado por Deus como forma de significação humana, certamente a ausência do trabalho afeta a dignidade humana. Todo aquele que, por circunstâncias sociais,  políticas ou outras quaisquer, é privado de "lavrar a terra e tirar dela seu sustento", é ferido em seu sentimento de humanidade. Faz parte, assim, da Missão da Igreja denunciar todo processo de desumanização das pessoas  que é manifesto pelo desemprego, desajustes sociais e ou paternalismo social, presentes em nossa sociedade.   

A TERRA  NA CRIAÇÃO ... E também não havia homem para lavrar o solo (2.5b)

Sobre este assunto preferimos partir de um caso particular: "Sou filha, neta e bisneta de lavradores do norte do Paraná. Se houvesse alguma coisa que viesse a herdar com base em minha tradição familiar seria uma bela e desgastada enxada, nada mais. Meu pai, tios e avós eram gente marcada pelo trabalho, com mãos grossas e calejadas, nucas avermelhadas do sol e cabelos queimados em suas pontas como boa parte dos trabalhadores do interior deste tão grande país. Possuíam  um sonho, ter um pedacinho de terra para plantar, algo que fosse deles. Com certeza,  cuidar da terra e plantar eles saberiam fazer muito bem depois de tantos e tantos longos anos de labuta para grandes fazendeiros. Muitas vezes sentei com meu avô em sua pequena varanda e o ouvi seus suspiros sobre seu sonho frustrado de ter um pedacinho de chão. Não pensava em grandes produções para exportação, tecnologias avançadas, nem mesmo em ser um grande empresário da agricultura. Seu sonho era meio de índio, certamente herança de seus avós. Ele queria uma pedaço de terra para plantar algum arroz, feijão e fazer um bom chiqueiro para criar alguns porcos para o Natal. Morreu meu avô, e, o máximo que ele conseguiu se aproximar de seu sonho foi com uns dois pés de café plantados no quintal de sua casa que ele cuidava, com sua pequena aposentadoria, como se fosse uma grande lavoura. Era o sonho da terra, compartilhado por  milhares de pessoas em nosso país".

O escritor do texto que estamos estudando não conhecia o Brasil, muito menos a realidade da maioria da população brasileira que, da mesma forma que meu pai, avô e bisavô sonha em ter um pedacinho de terra para plantar feijão e arroz, ou macaxeira e alguns pés de açai, quem sabe algum cacau e uns inhames para o café das manhã. Mas, gente que não pode realizar seu sonho tão humano, porque em um país com 8. 511. 996 km2  de extensão territorial  não há terra suficiente. Talvez seja porque também uns dez por cento de nossa população acha que precisa de muito mais espaço neste mundo que os demais, e acumula para si quase toda a terra cultivável, que nem sempre é cultivada, mantendo ociosos hectares e hectares dessa terra.

No entanto, certamente, o escritor do nosso texto conhecia outra história de um outro povo que sabia o que era este "sonho humano". Um povo que morou em terra alheia para quem também teve que trabalhar na agricultura. Povo que sabia da importância da terra para a própria dignidade humana. Este redator deixou o seguinte registro depois de seu relato da queda: o Senhor Deus, pois, o lançou fora do jardim do Éden, para lavrar a terra de que fora tomado (Gên. 3. 23).  O homem continuava vinculado à dãmãh, da qual  afinal ele fora formado. Mesmo depois da queda a terra era do homem, porque o homem também era da terra. Ainda que a relação entre homem e terra já não fosse tão amistosa, um dependeria do outro e estavam completamente ligados. Disse o Senhor sobre isso a Israel  ao falar sobre o ano do jubileu A terra não será vendida perpetuamente, porque a terra é minha, e vós estais comigo como estrangeiros e peregrinos... (Lev. 25.23). Donald B. Kraybill faz o seguinte comentário sobre este texto:

A terra e as pessoas são do Senhor... Nós que gerenciamos terras e pessoas, não somos proprietários... Não ousemos usar terras e pessoas de forma egoística para erigirmos pirâmides econômicas, criar dinastias sociais ou alimentar egos ávidos de dinheiro[5].

Paul Freston também comenta o texto em sua análise do livro de Neemias:

Antes de introduzí- los na terra prometida, Deus lhes dera leis que, no contexto de uma sociedade agrícola, permitiriam que as relações sociais refletissem o caráter de Deus. No campo econômico, um princípio fundamental dessas leis era que cada família possuísse terra ... e nunca perdesse sua terra... Assim as desigualdades não seriam perpetuadas de geração em geração[6]

Conclusão

O Senhor  "cedeu" a terra para alimentar os seres humanos e os animais. Se os recursos naturais disponíveis neste mundo fossem bem utilizados e distribuídos não haveria fome. No entanto, estes recursos são limitados e, para que um tenha demais é necessário que outro tenha “de menos”. Os que fazem da terra sua grande empresa nem sempre estão preocupados em alimentar. Geralmente seu interesse é produzir o que é mais lucrativo e que possa gerar exportações. Para alcançar seus intuitos empresariais, na maioria das vezes, a terra é altamente explorada e agredida como uma escrava de pessoas gananciosas que não se importam em esgotar seus recursos para obter seus lucros. 

Faz parte da Missão da Igreja atuar profeticamente contra as injustiças deste mundo e faz parte da Missão da Igreja Brasileira atuar profeticamente contra as injustiças neste país e não dar braços aos grandes latifundiários simplesmente para obter alguns tijolos para seus templos. Não podemos mais aceitar essa tão latente disparidade social e agressão ecológica. Há crianças no norte do país desmaiando   por causa de fome, outros vivendo unicamente de farinha de mandioca e cabeça de peixe. Há famílias inteiras no sertão do Nordeste fazendo de seu almoço e jantar plantas da caatinga utilizadas para alimentar gado.  Há muito cortador de cana, catador de algodão, quebrador de milho, derriçador de café que trabalha o dia todo e se alimenta somente com um arroz e feijão frio.  Muitas pessoas trabalhando e vivendo em condições desumanas e contrárias à proposta bíblica. Mas,  e a terra que  foi dada aos seres humanos para lavrar e alimentar a nós e a nossos filhos?  Será necessário talvez  inverter o texto que  foi mencionado como subtítulo neste capítulo, para: ... e também não havia solo para o homem lavrar, por ser mais fácil mudar o texto do que mudar a situação que hoje se  vive no país?

Uma Teologia Bíblica  da Missão, que parte de olhos latino- americanos para o texto bíblico, não pode desconsiderar o que a Bíblia  diz sobre o tratamento da terra e da natureza. A salvação que foi concedida em Jesus Cristo é integral. Se o pecado afetou toda a realidade humana, a salvação não pode alcançar menos do que isto, a Missão é envolvida numa tarefa de restauração integral.

O PAPEL DA MULHER NA CRIAÇÃO: ...uma adjutora que lhe corresponda (2.18)... esta é agora osso dos meus ossos e carne da minha carne (2. 23)

      Muito se tem falado sobre a situação da mulher na Igreja e na sociedade, mas as mudanças são lentas e, no meio eclesiástico, formado por pessoas que se dizem nova criação em Cristo, o problema ainda é mais acentuado. A fé cristã é para todos porque a salvação é universal, isto todos concordamos. Paulo fala a respeito em Gál. 4.28 ... não há macho nem fêmea, pois todos vós sois um em Cristo Jesus. Infelizmente, a religião cristã ainda pode ser chamada de "masculina". Da mesma forma como por muito tempo o cristianismo foi considerado  e ainda o é, em muitos lugares uma religião étnica, ou seja, religião de brancos é considerado também, até hoje, religião dominada por homens.  Emilio Núñez, faz o seguinte comentário sobre o reconhecimento do papel da mulher por parte da Igreja:

A Igreja não está isenta de tão grave responsabilidade. Ela deveria ser sempre a primeira a demandar que se dê a mulher o lugar que merece na família e na sociedade... A Igreja evangélica deve ser sempre defensora dos direitos da mulher, não tanto por razões ideológicas ou políticas, como por obediência à revelação escrita de Deus... [7]

Pregamos que em Jesus  todas as coisas são restauradas. Em Colossenses isto é declarado maravilhosamente em um hino cristológico ... e que, havendo por ele feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliasse consigo mesmo todas as coisas... (1. 20). Neste caso, Paulo está fazendo referências direta à criação, pois fala da atuação de  Cristo nela ...nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra... tudo foi criado por ele e para ele (Col. 1. 16).

O texto do Gênesis sobre a criação mostra que a mulher foi criada em situação de igualdade com o homem, mesma composição ... ossos dos meus ossos e carne de minha carne..., a isso Bauer comenta:  É certo que esta ação simbólica de Deus exprime a profunda semelhança dos dois seres[8];  mesma capacidade de julgar e dominar  uma auxiliadora que lhe corresponda, mesma origem e mesmo criador  ...formou a mulher...., mesma responsabilidade diante do pecado expressa em Gên. 3. 24 Ele baniu o homem...., ou seja, “ser humano”. Isto significa que os dois foram criados por Deus com uma missão neste mundo, mesma condição de domínio sobre a criação, mesma responsabilidade social e familiar implícitos na ordem de procriação e enchimento da terra. Com isto, a mesma responsabilidade diante de Deus pela rebeldia humana, que foi uma ação conjunta.  Adham representada pelas figuras do homem e da mulher, rebelou-se contra o domínio do Criador sendo os dois  expulsos do Jardim do Éden e punidos por Deus pelo seu pecado.

Paulo lembra aos seus leitores em Corinto que Deus formou a mulher a partir do corpo do homem, da mesma forma, designou que os homens fossem formados à partir e no corpo da mulher Pois, se a mulher foi tirada do homem, o homem nasce da mulher, e tudo vem de Deus (I Cor. 11.12). Com base nessa leitura percebemos uma interdependência entre mulher e homem.  Nos textos sobre a criação não há evidência de hierarquia, há sim uma parceria estabelecida pelo próprio Deus.  A hierarquização nas relações humanas é muito mais resultante da incapacidade de viverem em parceria do que em mandatos bíblicos.

Conclusão

Por mais reprimida que tenha sido histórica e socialmente a capacidade de liderança e de ampla atuação da mulher, isto faz parte dela desde o princípio de todas as coisas e foi dado a ela pelo próprio Deus em seu ato criador. Esta repressão somente resulta em frustração e sofrimento por  não poder cumprir como deveria o papel que lhe foi designado em relação ao mundo e à criação, a quem também foi delegada a responsabilidade de cuidar e administrar as coisas existentes.  Esta atitude em relação à mulher é também desumanizadora.

 Os textos sobre a criação falam acerca da parceria entre homem e mulher, o homem como homem e a mulher como mulher, juntos cumprindo o papel dado por Deus em relação ao mundo e a vida, sendo juntos, Adam – humanidade formada por Deus. O homem não responde sozinho pela Missão junto à Criação. 

Falta também na Teologia o "olhar de mulher", sua participação hermenêutica em relação ao texto bíblico, ao mundo, a vida e as relações com Deus. Falta na liderança da Igreja o toque, a observação e a sapiência feminina.  Falta ao homem entender, que a mulher não é seu cinquenta por cento  (50%), pois Deus não fez duas metades mas de um fez dois seres completos, que se completam em termos de humanidade, e que os dois deverão dar contas a Deus no cumprimento de sua missão. Nem que a mulher é aquela que está por trás  fazendo dele um grande homem, pois a humanidade não precisa de grandes homens nem de grandes mulheres,  mas de seres humanos que cumpram sua vocação como humanidade criada por Deus, homem e mulher, lado a lado cumprindo os desígnios do Criador.

CONSIDERAÇÕES FINAIS:

Uma teologia bíblica da criação é imprescindível para uma verdadeira Teologia da Missão. Com base nos textos da criação entendemos que faz parte da missão da Igreja nesse mundo, visando a restauração da própria condição humana que é a grande proposta do evangelho de Jesus Cristo:

a)    Ensinar o valor  do trabalho entre os homens e do serviço a Deus, saudável e não com propósitos gananciosos e gerenciamento desumanizador,  como ordenança divina para o ser humano, como meio de significação, realização e de encontro com a própria criação que foi feita por Deus para ser trabalhada pelos seres humanos e que sempre responderá aos bons cuidados que lhe forem destinados, cumprindo  seu papel enquanto natureza responsável pela  sobrevivência  humana.

b)    Denunciar os maus tratos para com a terra e a criação de uma forma geral e a injustiça manifesta na má distribuição de terras, como consequência do pecado e do distanciamento de Deus. Não comungar, em momento algum, com projetos que acentuem tal situação e atuar profeticamente contra esse sistema de desumanização vivido abertamente em nosso país e que traz danos em grandes escalas para, principalmente, as camadas mais pobres de nossa sociedade.

c)     Dignificar a mulher, primeiramente em seu meio, permitindo-lhe ocupar o espaço designado por Deus, e desenvolver seus dons e potenciais. Reconhecer esses dons e realizações na Igreja e na sociedade em geral, como testemunho de um novo povo que em Cristo vê restaurado  seus valores sociais  e coloca todo ser humano em pés diante de Deus.

      Responder  à Missão da  Igreja é muito mais do que fazer grandes e belos discursos sobre o ide de Jesus e o clamor do mundo infiel. É também atuar diretamente na transformação de estruturas desumanizantes, dominadas por uma situação de pecado individual e social, na qual a igreja está muitas vezes envolvida seja pela participação direta,  omissão, movida  por idealismos pseudo- teológicos, ausência bíblica ou por pura troca de benefícios e favores.  

Em nenhum momento a Igreja será isenta de sua responsabilidade de pensar a fé, e pensar acerca dos propósitos de Deus tendo em vistas os reclames do mundo em sua volta. Se a nossa Teologia, em sua tarefa de reflexão, não pode parar para ver essa realidade e ouvir estas vozes, ela não serve para este mundo e também não serve para a Igreja, sendo assim, não é Teologia. Porque a Teologia legítima, em sua tarefa, ouve a Deus, ouve a história, ouve a Igreja e ouve ao mundo. 

BIBLIOGRAFIA

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ASTE, 1968.

BLAUW, Johannes. A Natureza Missionária da Igreja. São Paulo: ASTE, 1966.

CARRIKER, Timóteo. Missão Integral Uma Teologia Bíblica. São Paulo: SEPAL, 1992.

COMBLIN, José, REYES, Adela Guzmán, HENRIQUEZ, Yolanda Q. . O Homem   na Criação - Curso de Formação Cristã. 2ª ed.. São Paulo: Paulinas, 1989. FRESTON, Paul. Neemias Um Profissional a Serviço do Reino. 2ª ed.. São Paulo: ABU, 1993.

MÜELLER, Karl. Teologia da Missão. Petrópolis: Vozes, 1995.

NÚÑEZ, Emilio A . Hacia una misionología evangélica latinoamericana. Santa Fé,  Argentina: COMIBAN, 1977.

SCHREINER, J. (ed). Palavra e Mensagem. São Paulo: Paulinas, 1978.

SENIOR, Donald, STUHLMUELLER, Carrol. Os Fundamentos Bíblicos da Missão.São Paulo: Paulinas, 1987.

VICEDOM, Georg. A Missão como Obra de Deus. São Leopoldo: Sinodal, 1996.

KRAYBILL, Donald B. O Reino de Ponta- Cabeça. São Paulo: Cristã Unida,1993.

 



[1] Johannes B. BAUER, Israel Contempla a Pré- História in Palavra e Mensagem, 1978, p. 131.

[2] Emílio NUNEZ, op. Cit.,  pág. 51.

[3] Bíblia de Jerusalém, p. 35.  No comentário sobre o julgamento de Deus sobre o homem, a mulher e a serpente.

[4] Gilbert e Etiene Charpentier, op. Cit.,  p. 17- 22.

[5] Donald B. KRAYBILL. O Reino de Ponta- Cabeça. 1993, P. 92

[6] Paul, FRESTON. Um Profissional a Serviço do Reino, 1993, p. 58.

[7] Emílio NÚNEZ, op. Cit., p. 32

[8] Op. Cit.,  p. 130

 

 

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